Thursday, May 28, 2009

A Moça e a Cidade

por Naiah Mendonça

(Este texto faz parte da série de fotos “A Moça e a Cidade” formada pelo texto e seis fotografias em grande formato)



Ela andava distraída. Estava perto de casa, em ruas conhecidas que sempre pareciam diferentes.
Olhava para cima. Gostava de ver os fios desenhados no meio do céu. Sentia calor, o jeans e as botas estavam incomodando naquele dia quente. Não demorava muito o olhar, pois tinha medo que de tão distraída batesse em alguém ou tropeçasse e quebrasse os dentes que tanto gostava. Então voltava seu rosto para frente. Logo ele ia para o chão. Via a calçada com seus formatos. Olhava o cinza e o branco. De novo tinha de se lembrar de caminhar e prestar atenção.
Passava pelos pontos de ônibus e queria andar mais devagar, tentar olhar os olhos das pessoas. Sentia calor e calor. Aquele era mais um dia como todos: voltava do colégio a pé sempre olhando. Olhando e com medo de tropeçar e cair.
Virou a esquina. Olhou novamente a torre alta - tanto metal se entrecruzando. Estava mais distraída que normalmente neste dia. Tão distraída, que de repente começou a se sentir estranha, muito diferente do que se sentia sempre. Ficou zonza e parou num bar. Pediu água. Sentiu que não estava bem e achou que ia desmaiar. Alguma coisa estava lhe acontecendo. Não pediria ajuda para ninguém. Detestaria parecer frágil. Ficaria ali, naquele bar, até que estivesse bem.
Esperou. Então o mal-estar virou uma angústia. Pediu cerveja para tentar aliviar uma dor rompante no peito. Achou que estava com um problema de coração, ou que aquilo podia ser efeito das drogas que havia consumido - mas já fazia um tempo. Poderia também ser efeito colateral do remédio para dormir.
Teve uma vontade enorme de andar por lugares diferentes. Uma ânsia. Desespero. Precisava mexer-se e rápido para ver se o mal-estar passava. Andou até o mais longe que pôde durante horas e horas.
Voltou para casa exausta. Estava triste e com uma conclusão do que era seu mal-estar: estava apaixonada. De tanto andar pela cidade e de tão distraída que andava, nem percebeu que havia se apaixonado.
Sentia-se agora sozinha e com um grande problema. Deitada na cama sabia que não haveria nada a fazer. Sofreria.
A cidade há muitos anos casou-se com o bonito cobrador de ônibus que trabalhava no Avenidas 1740. Todos conheciam Expedito.
Sabia disto, sabia também que ele amava muito a cidade e que a cidade sempre fora louca por ele.
Correu. Saiu de casa sem avisar. Dirigiu seu carro. Ia se encontrar com a cidade. Tinha que ser rápida, estava apaixonada, tinha uma ânsia, sentia uma dor de morte.
Pensava em tocar o alto dos prédios, em sentir o calor quente e seco do asfalto.
Parou o carro. Desceu com as roupas que sempre imaginou usar quando se apaixonasse.
A cidade estava lá. Sabia que ela viria, a estava esperando. E ela sabia que para a cidade aquilo não teria importância - seria mais uma noite com uma de suas amantes.
Tirou lentamente as roupas de frente para a cidade, que a olhava desejando-a. Havia um túnel longo e era nele que ela desejava entrar. Luzes e sensações. Estava em êxtase.
Sentiu o metal frio das torres de transmissão em sua pele branca e quente. Sentiu as vigas irem e virem por seu corpo. Sentiu dor e gostou.
Sentiu a cidade ser brusca e rude. Alguns metais estavam cortando-a por dentro.
Lembrou-se vagamente que possuía um corpo e que nele havia um útero. Sentiu ele todo escorrendo por entre suas pernas. A cidade não parava, não olhava. Ela estava sangrando e sentia prazer em estar se despedaçando - seu útero ali no meio da rua. Os carros então passaram sobre ele deixando alguns restos na sarjeta úmida.
A cidade não parou de penetrá-la até que ela gozasse alto. Ninguém ouviu. As buzinas dos carros e os barulhos que a cidade fazia abafaram o seu gozo.
Depois a cidade gozou e houve um trovão e chuva forte.
A cidade levantou-se. Mandou-a de volta para casa. Não se permitiria nem um segundo de carinho. Aquilo era só sexo, lembrou-se a cidade. Expedito já poderia estar em casa esperando-a e ela já havia gozado e teria que ir embora logo antes que se envolvesse com a pele quente da moça.
A moça foi na chuva andando. Esqueceu o carro de tão atordoada.
A chuva levou os pedaços de seu útero que estavam na sarjeta. Ela olhou para ver se ainda restava algo, se poderia recuperar algum pedaço dele, e nem sabia para quê.
Teve um pouco de raiva da cidade. Mas sabia que ela queria tudo aquilo e iria até o fim, mesmo que isto lhe custasse seus pequenos pedaços.
A cidade chegou em casa. Seu marido Expedito já estava lá à sua espera. Sentiu nela, entre a fumaça e o cheiro do gás carbônico, o cheiro da traição. Sofreu calado de uma pontada no peito e tentou não pensar mais nisso.
Expedito nunca saberia da moça, da moça sem útero que andava distraída.
Distraída agora ainda mais.

Sunday, March 15, 2009

Time



grafite sobre tela

Me Myself and I




dermatográfico sobre canson
420 x 297

Tuesday, February 10, 2009

vídeo instalação - sem título


vista do lado de fora do Centro Cultural São Paulo


Um rosto e seu sopro - em silêncio

A obra de Naiah Mendonça é endereçada para alguns registros, o da incomunicabilidade, do auto-retrato, do jogo entre interior e exterior, sujeito e mundo. No trabalho exibido no CCSP, vemos a projeção de um vídeo no qual o rosto de uma mulher, a própria artista, surge soprando uma fumaça branca, que toma conta da cena e nos lança em longos segundos de branco total. Em uma dinâmica cíclica, a mulher retorna, a fumaça é novamente jorrada, o branco preenche o que vemos, e o ciclo se perpetua. Não há som.’
Notemos alguns detalhes desse vídeo de aspectos tão simples. A imagem da mulher soprando a fumaça é sutilmente construída, os cabelos soltos e com volume ganham força, revelando uma máscara diversa da artista em outros vídeos, aqui mais próxima de uma mulher do que de uma menina; a maquiagem levemente pesada ao redor dos olhos, a tênue insinuação de uma nudez guardada abaixo dos ombros, tudo isso desenha um certo ar decadente que pode roçar o erotismo e a sedução, mas esse ar não chega a ser direto, se trata antes de uma construção sutil, que ganha potência por contraste em relação ao branco e suas associações às idéias de leveza, pureza e espiritualidade. O ato de expelir uma grande quantidade de fumaça alva, por sua vez, gera uma atmosfera onírica, fantástica. Nossos corpos retêm e soltam fluídos, líquidos, mas aqui o elemento é outro, não esperado. Daquela mulher sai um sopro, que pode ser o sopro da vida, ou não. A ambigüidade entre sonho e pesadelo, pureza e decadência, sedução e repulsa estão em jogo na obra da artista.
O fato de não haver som é mais um dado de estranheza constituinte do vídeo. Qualquer ação humana vem acompanhada de sua sonoridade, caminhar, abrir uma porta, soprar. O silêncio voluntário surge como um traço de incomunicabilidade, campo de questão caro à obra de Naiah como um todo. No vídeo Words Don´t Come Easily (2006), vemos a artista – numa máscara diversa do vídeo em exibição no CCSP, mais menina do que mulher – em uma cama que evoca um quarto de adolescente de classe média, girando um globo terrestre, parando, apontando uma localidade e pronunciando as letras do nome do país, mas tudo em silêncio. Os possíveis destinos sonhados para uma viagem hipotética têm sua promessa travada pelo mecanismo da ausência de som, que surge como sinal de impossibilidade. Algo não se completa, a mensagem não chega por inteiro, mas em partes, sendo necessário uma decifração. O gesto de mover o mundo encontra seus obstáculos, indicando possíveis limites para os sonhos da adolescente do tempo presente.
Em um outro vídeo, Olympia (2005), a dificuldade de dizer também cumpre seu papel. O som que escutamos é o de uma sirene, a mulher está deitada em um sofá, no colo de um possível namorado, assistindo televisão. Sem qualquer aviso, ela começa a sangrar por diversas partes do corpo. Entretanto, o sangramento crescente não modifica em nada a cena, ela e ele continuam impassíveis, assistindo a televisão ligada. A urgência permanece em estado latente, ela está ali, a sangrar de forma convulsiva, a sirene não cessa de tocar, mas nenhuma palavra é dita. O sangue escorre sem que discurso algum seja enunciado sobre aquele caos. Nenhum dos dois esboça qualquer movimento, a aparente normalidade vigora enquanto o corpo transborda, indicando uma paisagem interior que já não dá conta e se exibe para o mundo, que por sua vez não tem ouvidos nem olhos para o seu desespero.
Retornando ao vídeo exposto no CCSP, pensando-o dentro do contexto da obra da artista, vale sublinhar a importância dos longos intervalos em branco que separam as aparições do rosto daquela mulher. A exigência de reconstrução do que falta é parte tão importante quanto os momentos de aparição da imagem. Podemos pensar que os brancos do vídeo de Naiah possuem a importância do silêncio entre um verso e outro de um poema; ali, na interrupção, no espaço em branco do papel, habita parte do sentido. Há que se saber escutar esse silêncio. É somente no saber ver e escutar o que falta, que podemos ambicionar decifrar aquele rosto e o significado de seu sopro.

Luisa Duarte

Thursday, November 13, 2008

texto: Paulo Herkenhoff sobre o vídeo Words don´t come easily











Monday, December 11, 2006

untitled, 5min, 2005

untitled, 5min, 2005

Words don´t come easily, 5 min, 2006

Sunday, December 03, 2006

CV

Naiah Mendonça

55 11 8315 8802; 55 11 3582-8561

nasceu em [born in]

São José do Rio Preto - São Paulo, Brasil - 11/11/1978

vive e trabalha em [lives and works in]

São Paulo, SP, Brasil.

formação [education]

2002-2005

Bacharelado em Artes Plásticas - Faculdade Armando Alvares Penteado– FAAP

professor orientador: Eduardo Brandão

exposições individuais [ individual exhibitions]

2008

CCSP – Programa Anual de Exposições 2008

exposições coletivas [group exhibitions]

2008

Laços do Olhar, curadoria Paulo Herkenhoff , Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP

14º Salão da Bahia, comissão de seleção: Justino Marinho, Solange Farkas, Vauluizo Bezerra, Eduardo de Jesus e Almandrade. Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador BA

2007

Espaços Plurais, artista convidada, curadoria Regina Johas, Casa do Lago –UNICAMP, Campinas, SP

Comunismo da Forma, Som + Imagem + Tempo. A estratégia do vídeo musical. curadoria: Fernando Oliva e Marcelo Rezende, Galeria Vermelho, São Paulo, SP

Atlas Américas, curadoria: Paulo Herkenhoff, Oi Futuro, Rio de janeiro, RJ

Eu/Desejo, curadoria: Luiza Interlenghi, Espaço Quarto, Rio de janeiro, RJ

situa/ação: vídeo de viagem, curadoria: Paula Alzugaray, Paço das Artes, São Paulo, SP

Thorrè Pop Factory, Vinil - intervenção na Escola São Paulo, curadoria: Dora Longo Bahia, São Paulo, SP

Mostravídeo, Itaú Cultural – vinte anos, Velocidade, curadoria Marcos Moraes, Belo Horizonte, MG e Belém, PA

2006

Mostra de Pesquisa Experimental, Casa da Palavra, Santo André, SP

Copa da Cultura, Projeto Brasil + Berlim - Videoarte Contemporânea Brasileira, kw - Institute for Contemporary Art, Berlin, Alemanha

Arte Pará , comissão de seleção: Paulo Herkenhoff, Milton Guran, Celso Fioravante, Lídia Souza, Fabize Muinhos. Fundação Romulo Maiorana, Belém, PA

Zona de Trânsito, Instituto Cervantes, São Paulo, SP

VIII Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Felix, BA

Rumos Itaú Cultural (edição 2005-2006) comissão de seleção formada por Lissette Lagnado, Marisa Mokarzel, Cristiana Tejo e Luisa Duarte, com coordenação de Aracy Amaral.

Instituto Itaú Cultural, São Paulo, SP

Paço Imperial, Rio de Janeiro, RJ

Centro Dragão do Mar Arte e Cultura, Fortaleza, CE

Espaço Cultural Casa das Onze Janelas Belém, PA

Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis, SC

Museu de Arte Contemporânea, Goiânia, GO

Ways of Looking at: Places and Landscapes, Centro Fundação Telefonica, Lima, Perú

2005

37º Anual de Arte da FAAP, São Paulo, SP

Vorazes, Grotescos e Malvados, curadoria Christine Melo, participou do trabalho “( )” acompanhando a artista Dora Longo Bahia, Paço das Artes, São Paulo, SP

Verbo, Galeria Vermelho, São Paulo, SP

Salão de Maio de Salvador, Salvador, BA

2004

Casa dos Doces, curadoria Regina Johas, Casa do Lago –UNICAMP, Campinas, SP

1º Prêmio Chamex de Arte Jovem, comitê de seleção: Agnaldo Farias, Eduardo Brandão, Flávia Ribeiro, Lorenzo Mammi e Stela Barbieri

Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP

Teatro Cláudio Santoro, Brasília, DF

Memorial da Cidade, Curitiba, PR

MAM, Rio de Janeiro, RJ

trabalhos relacionados [works]

2006 / 2007 Assistente da artista Dora Longo Bahia

2005 Customização de peças para a loja Miss Sixty

2004 Monitora da 26ª Bienal de Arte de São Paulo

2003 Assistente do pintor José Roberto Aguilar no projeto “Embalando o Passado e o Presente. Um Presente para o Futuro.”

Assistente do artista plástico e estilista Maurício Ianês na montagem da exposição“in vêl”, realizada na Galeria Vermelho em São Paulo.


Thursday, November 30, 2006

Fred City, 2005 photography 88 x132 cm



René City, 2005 photography 95 x 139 cm

René City, 2005 photography 75 x 70 cm



René City, 2005 photography 103 x 136 cm

Mariana City, 2005 photography 75 x 100cm