por Naiah Mendonça
(Este texto faz parte da série de fotos “A Moça e a Cidade” formada pelo texto e seis fotografias em grande formato)
Ela andava distraída. Estava perto de casa, em ruas conhecidas que sempre pareciam diferentes.
Olhava para cima. Gostava de ver os fios desenhados no meio do céu. Sentia calor, o jeans e as botas estavam incomodando naquele dia quente. Não demorava muito o olhar, pois tinha medo que de tão distraída batesse em alguém ou tropeçasse e quebrasse os dentes que tanto gostava. Então voltava seu rosto para frente. Logo ele ia para o chão. Via a calçada com seus formatos. Olhava o cinza e o branco. De novo tinha de se lembrar de caminhar e prestar atenção.
Passava pelos pontos de ônibus e queria andar mais devagar, tentar olhar os olhos das pessoas. Sentia calor e calor. Aquele era mais um dia como todos: voltava do colégio a pé sempre olhando. Olhando e com medo de tropeçar e cair.
Virou a esquina. Olhou novamente a torre alta - tanto metal se entrecruzando. Estava mais distraída que normalmente neste dia. Tão distraída, que de repente começou a se sentir estranha, muito diferente do que se sentia sempre. Ficou zonza e parou num bar. Pediu água. Sentiu que não estava bem e achou que ia desmaiar. Alguma coisa estava lhe acontecendo. Não pediria ajuda para ninguém. Detestaria parecer frágil. Ficaria ali, naquele bar, até que estivesse bem.
Esperou. Então o mal-estar virou uma angústia. Pediu cerveja para tentar aliviar uma dor rompante no peito. Achou que estava com um problema de coração, ou que aquilo podia ser efeito das drogas que havia consumido - mas já fazia um tempo. Poderia também ser efeito colateral do remédio para dormir.
Teve uma vontade enorme de andar por lugares diferentes. Uma ânsia. Desespero. Precisava mexer-se e rápido para ver se o mal-estar passava. Andou até o mais longe que pôde durante horas e horas.
Voltou para casa exausta. Estava triste e com uma conclusão do que era seu mal-estar: estava apaixonada. De tanto andar pela cidade e de tão distraída que andava, nem percebeu que havia se apaixonado.
Sentia-se agora sozinha e com um grande problema. Deitada na cama sabia que não haveria nada a fazer. Sofreria.
A cidade há muitos anos casou-se com o bonito cobrador de ônibus que trabalhava no Avenidas 1740. Todos conheciam Expedito.
Sabia disto, sabia também que ele amava muito a cidade e que a cidade sempre fora louca por ele.
Correu. Saiu de casa sem avisar. Dirigiu seu carro. Ia se encontrar com a cidade. Tinha que ser rápida, estava apaixonada, tinha uma ânsia, sentia uma dor de morte.
Pensava em tocar o alto dos prédios, em sentir o calor quente e seco do asfalto.
Parou o carro. Desceu com as roupas que sempre imaginou usar quando se apaixonasse.
A cidade estava lá. Sabia que ela viria, a estava esperando. E ela sabia que para a cidade aquilo não teria importância - seria mais uma noite com uma de suas amantes.
Tirou lentamente as roupas de frente para a cidade, que a olhava desejando-a. Havia um túnel longo e era nele que ela desejava entrar. Luzes e sensações. Estava em êxtase.
Sentiu o metal frio das torres de transmissão em sua pele branca e quente. Sentiu as vigas irem e virem por seu corpo. Sentiu dor e gostou.
Sentiu a cidade ser brusca e rude. Alguns metais estavam cortando-a por dentro.
Lembrou-se vagamente que possuía um corpo e que nele havia um útero. Sentiu ele todo escorrendo por entre suas pernas. A cidade não parava, não olhava. Ela estava sangrando e sentia prazer em estar se despedaçando - seu útero ali no meio da rua. Os carros então passaram sobre ele deixando alguns restos na sarjeta úmida.
A cidade não parou de penetrá-la até que ela gozasse alto. Ninguém ouviu. As buzinas dos carros e os barulhos que a cidade fazia abafaram o seu gozo.
Depois a cidade gozou e houve um trovão e chuva forte.
A cidade levantou-se. Mandou-a de volta para casa. Não se permitiria nem um segundo de carinho. Aquilo era só sexo, lembrou-se a cidade. Expedito já poderia estar em casa esperando-a e ela já havia gozado e teria que ir embora logo antes que se envolvesse com a pele quente da moça.
A moça foi na chuva andando. Esqueceu o carro de tão atordoada.
A chuva levou os pedaços de seu útero que estavam na sarjeta. Ela olhou para ver se ainda restava algo, se poderia recuperar algum pedaço dele, e nem sabia para quê.
Teve um pouco de raiva da cidade. Mas sabia que ela queria tudo aquilo e iria até o fim, mesmo que isto lhe custasse seus pequenos pedaços.
A cidade chegou em casa. Seu marido Expedito já estava lá à sua espera. Sentiu nela, entre a fumaça e o cheiro do gás carbônico, o cheiro da traição. Sofreu calado de uma pontada no peito e tentou não pensar mais nisso.
Expedito nunca saberia da moça, da moça sem útero que andava distraída.
Distraída agora ainda mais.













